{"id":233,"date":"2010-05-31T19:26:36","date_gmt":"2010-05-31T22:26:36","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cristinabottallo.art.br\/2010\/05\/31\/sobre-meu-pai-e-outras-coisinhas\/"},"modified":"2020-07-10T00:51:04","modified_gmt":"2020-07-10T03:51:04","slug":"sobre-meu-pai-e-outras-coisinhas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/crisbottallo.com.br\/blog\/?p=233","title":{"rendered":"Sobre meu pai e outras coisinhas\u2026"},"content":{"rendered":"<p><strong><\/strong><strong>Ol\u00e1, amigas e amigos&#8230;<\/p>\n<p>Tenho dividido meus dias como voc\u00eas, e j\u00e1 falei aqui mais de uma vez que essa experi\u00eancia do &#8220;<em>post<\/em> todo dia&#8221; foi a coisa mais bacana que me aconteceu nos \u00faltimos tempos. Come\u00e7ou como uma maneira de me obrigar a produzir mais &#8211; eu vinha de um per\u00edodo de certo afastamento do trabalho, precisava de um compromisso para me trazer de volta, e meu compromisso foi firmado com voc\u00eas.<\/p>\n<p>Isso, somado ao fato de que gosto muito de escrever, me fez ter vontade de falar de outros assuntos tamb\u00e9m, e esse n\u00e3o \u00e9 o primeiro <em>post<\/em> que escrevo sobre temas diferentes de artes e trabalhos manuais, voc\u00eas bem sabem disso. Ent\u00e3o a\u00ed vai mais um desses, uma conversa&#8230; Preciso contar a voc\u00eas como estou&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Meu pai est\u00e1 hospitalizado na UTI h\u00e1 21 dias e ficou em coma induzido por duas semanas. Sua situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 est\u00e1vel agora, ele saiu do per\u00edodo cr\u00edtico e est\u00e1 voltando do coma muito lentamente. Ele est\u00e1 sem os medicamentos h\u00e1 uma semana, mas s\u00f3 no s\u00e1bado come\u00e7ou a esbo\u00e7ar algumas rea\u00e7\u00f5es, bocejando e mexendo as sobrancelhas.<\/p>\n<p>Eu e meus irm\u00e3os nos revezamos ficando com ele todos os dias e ontem eu estava l\u00e1, no final da tarde, s\u00f3 eu e ele, e comecei a conversar, apertar sua m\u00e3o, massagear suas pernas&#8230; Ele estava de olhos fechados, ainda dormindo, com v\u00e1rios tubos ligados ao seu corpo, inclusive o respirador em seu pesco\u00e7o (ele fez uma traqueostomia, um tubo ligado ao respirador foi encaixado em sua garganta, diretamente em sua traqu\u00e9ia, para auxili\u00e1-lo com a respira\u00e7\u00e3o, que ele ainda n\u00e3o consegue controlar sozinho), quando ele come\u00e7ou a chorar, de olhos fechados, enquanto eu falava com ele.<\/p>\n<p>Aquilo me emocionou demais, est\u00e1vamos conectados, ele me entendia, e seu choro era a manifesta\u00e7\u00e3o de sua compreens\u00e3o, sua maneira de fazer contato comigo. Ele estava de volta!<\/p>\n<p>Fiquei feliz, feliz! Eu queria falar mais, mas ao mesmo tempo me dava um aperto, eu n\u00e3o queria que ele ficasse triste, mas eu queria ter certeza que ele estava l\u00e1, ent\u00e3o e eu beijava suas m\u00e3os e apertava suas pernas, porque eu n\u00e3o podia beijar seu rosto nem abra\u00e7\u00e1-lo e aquele contato era tudo que poder\u00edamos ter, e eu queria que ele me sentisse presente, e ficamos assim umas duas horas, ele chorava, eu chorava (e disfar\u00e7ava) e falava o quanto estamos orgulhosos de sua for\u00e7a e coragem, coisas assim.<\/p>\n<p>Quando fui para casa eu estava sentindo um monte de emo\u00e7\u00f5es: estava feliz e excitada com os sinais de sua presen\u00e7a e ao mesmo tempo com certa dor no cora\u00e7\u00e3o, certa melancolia por faz\u00ea-lo chorar (ningu\u00e9m gosta de fazer seus pais chorarem, n\u00e3o \u00e9 mesmo?), muita ansiedade por saber o que viria em seguida e um turbilh\u00e3o de pensamentos, pensamentos sobre minha vida, sobre o que realmente importa, sobre nosso destino, sobre o quanto temos controle de fato sobre nossas vidas e o quanto somos surpreendidos o tempo todo&#8230;<\/p>\n<p>Hoje eu estava com ele pela manh\u00e3 e agora ele j\u00e1 abre os olhos, vira o rosto procurando minha voz, mexe as m\u00e3os&#8230; Ele est\u00e1 acordando, voltando aos poucos, e estar presente nessa hora, v\u00ea-lo voltar, \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o indescrit\u00edvel. Eu queria estar com ele cada minuto, participar de cada momento daqui para frente, de fazer por ele o que ele fez por mim e meus irm\u00e3os a vida toda &#8211; transbordar de amor e nos encher de confian\u00e7a.<\/p>\n<p>Eu estou feliz e emocionada, muito emocionada para pensar nas minhas coisas&#8230; Tudo parece perder o sentido diante da grandeza desse sentimento&#8230; Eu sei que preciso encontrar meu eixo de novo, voltar a me concentrar no trabalho, ficar bem para cuidar bem dele, mas confesso a voc\u00eas, est\u00e1 dif\u00edcil pensar em outra coisa.<\/p>\n<p>Meu pai \u00e9 meu centro, meu porto-seguro, sempre foi assim para mim. Ele \u00e9 a primeira pessoa em quem penso quando estou feliz e quero compartilhar minha alegria e a primeira pessoa a quem recorro quando estou triste e preciso de colo, de conforto.<\/p>\n<p>Em frente \u00e0 minha escrivaninha, onde estou sentada agora, em meu ateli\u00ea de cria\u00e7\u00e3o, eu tenho um quadro que meu pai me deu. \u00c9 um trabalho do artista uruguaio Carlos P\u00e1ez Vilar\u00f3, artista de quem eu gosto muito, que ele comprou quando visitou seu ateli\u00ea, em 2000, e que traz uma dedicat\u00f3ria:<em> &#8220;A Eduardo con un abrazo de Carlos P\u00e1ez Vilar\u00f3&#8221;.<\/em> Meu pai me deu esse quadro h\u00e1 dois anos, e quando me instalei em meu novo ateli\u00ea eu o coloquei aqui, bem pertinho de onde costumo me sentar para escrever e pensar&#8230;<\/p>\n<p>O desenho do quadro \u00e9 um sol, um sol bem colorido, com um rosto tranquilo e com os olhos bem azuis, azuis como os olhos do meu pai. Meu pai \u00e9 esse sol que est\u00e1 aqui, comigo, o tempo todo. E eu nunca tinha reparado, at\u00e9 hoje, em como esse sol \u00e9 parecido com o meu pai&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ol\u00e1, amigas e amigos&#8230; Tenho dividido meus dias como voc\u00eas, e j\u00e1 falei aqui mais de uma vez que essa experi\u00eancia do &#8220;post todo dia&#8221; foi a coisa mais bacana que me aconteceu nos \u00faltimos tempos. 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