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Conversando sobre cores

Hoje vou falar um pouquinho sobre as cores as sensações que elas nos causam. Não que eu seja uma especialista no assunto, mas já li bastante coisa a respeito.
Além disso meu trabalho é todo baseado na composição de cores, então acho que posso passar algumas das minhas experiências com vocês, como sempre faço aqui em meu blog.
Para ilustrar o post, aí vão algumas das minhas serigrafias:


Serigrafia de peixes em tons de rosa e azul com moldura branca

O estudo das cores pode ser bastante técnico – se formos olhar para o lado científico e enxergar as cores exatamente como elas são, fisicamente falando, as cores não existem de fato, elas são a percepção que temos da luz. Uma definição física da cor é “sensação provocada pela ação da luz sobre o órgão da visão” (extraído do livro Da Cor à Cor Inexistente, de Israel Pedrosa).

Pois bem, se até em sua definição original a cor é percepção, imaginemos agora em termos artísticos ou estéticos. A cor é exatamente isso, sensações visuais (e por que não dizer também, emocionais). As cores são aquilo que elas nos provocam. Então uma mesma imagem pode ser percebida de maneiras muito diferentes se mudarmos as cores que a compõe. E mais que isso, uma imagem com cores também sofre interferência das outras cores que estão ao seu redor, das cores do ambiente.


Serigrafia peixes em tons de vermelho e azul com moldura preta

Nos dois modelos acima a mesma imagem foi impressa com combinações diferentes de cores. Na primeira escolhi tons mais suaves, mais pastéis e o resultado foi uma imagem mais “expandida”, com os elementos saltando para fora.

No segundo modelo trabalhei com tons mais puros e fortes, laranja, amarelo, vermelho e azul. O resultado é uma figura mais compacta, com os elementos em “tensão”. Para acentuar ainda mais essa percepção tão diferente das duas imagens, comparem o efeito da primeira gravura, emoldurada com uma moldura branca, que acentua ainda mais essa ideia de expansão, ao passo que no segundo quadro, com a moldura preta e mais estreita a figura parece até encolher, embora as duas gravuras tenham exatamente a mesma medida.

Pois é, não apenas percebemos a luz de maneiras diferentes, determinando assim cada cor, como também podemos combiná-las e ordená-las de maneiras muito particulares, acentuando ainda mais essas senações.


Primeira gravura sem moldura


Segunda gravura sem moldura

Observem que as gravuras acima, sem as molduras, também são percebidas de forma bem distinta.

Agora vamos entender um pouquinho mais esse universo das cores através de algumas definições básicas aplicadas à pintura, ou seja, vou falar aqui sobre as cores utilizadas em tintas e pigmentos, o que é diferente da cor óptica, afinal é isso que nos interessa, não é mesmo?

– Matiz: é a cor pura, primária. Essas cores são também chamadas de indecomponíveis, justamente porque não podem ser obtidas a partir de outras cores. Essas cores são o amarelo, o azul e o vermelho. também são conhecidas como cores primárias.

– Cor secundária: é a cor formada pela mistura de duas cores primárias. As secundárias são: larnaja (mistura de amarelo e vernelho), verde (mistura de azul e amarelo) e violeta (mistura de azul e vermelho).

– Cor terciária: é a cor intermediária entre uma cor secundária e qualquer uma das duas primárias que lhe dão origem. Ao observar um círculo de cores é possível ver uma variedade muito grande de cores intermediárias.

– Cores quentes: são o vermelho e o amarelo e todas as demais cores em que essas cores predominem.

– Cores frias:são o azul e o verde, bem como outras cores predominadas por eles.

Observação: Os verdes, violáceos, carmins e uma infinidade de tons poderão ser classificados como cores frias ou quentes, dependendo da porcntagem de azuis, amarelos e vermelhos em sua composição.

– Luminosidade:
é o grau de claridade de uma cor, em uma escala que vai do branco ao preto (acréscimo mínimo e máximo de brano e preto)

– Saturação: é apureza da cor. Diluir a matiz em água ou misturá-la a outro solvente ou pigemento reduz sua saturação.

Outro modelo de serigrafia de peixes, copm predominância de azuis e vermelhos


Mesmo modelo acima, com outras cores

Vocês percebem como as imagens ficam muito diferentes de acordo com a combinação das cores, das cores que estão ao seu lado? Pois é, por isso é que, ao fazer uma composição de cores, é tão importante quanto escolher as cores dos elementos (figuras), escolher as cores do fundo da pintura ou motivo.

Mas existem muitas outras definições de cores e seu papel nas composições, e vou continuar falando sobre esse tema no post de amanhã, então não deixem de acompanhá-lo, ok?

Ah, e vejam as fotos de alguns dos meus inseparáveis livros sobre o tema:


Casinha de passarinho

Retomando minhas pinturas em madeira, peguei essa peça que estava no ateliê há tempos, uma casinha de passarinho em MDF.
A qualidade do material não era muito boa não, cada parte da casinha tinha uma textura diferente, e sofri um pouco para pintá-la.

Mas valeu, porque fazê-la foi um jeito bom de treinar a mão e fazer outras peças, que ficaram realmente legais. As outras ainda não vou mostrar porque fazem parte de um projeto maior, mas aí vai a casinha de passarinhos, para não perder a prática…

casinha

A visão lateral, um lado…

casinha 2

… e o outro:

casinha 4

A parte de trás:

casinha 3

Um close da pintura das flores:

casinha 5

E o detalhe da pintura do telhado, com o passarinho:

casinha 6

Essa peça foi pintada quando eu estava me preparando para criar outras, para esse projeto especial que mencionei acima.
Queria fazer algo um tanto diferente de tudo que já fiz, mas no final acho que não consegui variar como queria, pelo menos não nessa peça, que ficou mais parecida com as outras que já fiz.

Mas as inéditas sim, ficaram especiais…
Agora é esperar para mostrar aqui na hora certa. 😀


Uma questão de coração

Hoje foi um dia especial para mim.

Não, ele não amanheceu lindo, azul e ensolarado como eu gosto, ao contrário, amanheceu uma quarta-feira bem cinza e com muita chuva, trânsito caótico pós feriado aqui em São Paulo, um dia com cara de que nada ia dar certo.
Mas ainda assim hoje foi muito especial, o dia mais esperado por mim nos últimos tempos…

Depois de seis semanas trabalhando exclusivamente nesse projeto – oito horas por dia, de segunda a sexta, incluindo sábados, domingos e feriados – hoje foi o dia das fotos para a revista mais bonita e bacana que temos por aqui, o dia em que eu fotografei uma matéria de pintura para a Make, da minha queridíssima Rita Paiva.

Rita e Cacá na produção...
Rita e Cacá na produção…
Ivan acertando os detalhes...
Ivan acertando os detalhes…

Conheço a Rita há 25 anos, pouco mais.
Ela foi minha primeira editora, a primeira profissional a me receber numa redação de uma revista (na época, na Editora Abril, pela Manequim e Arte e Casa) e nesses anos todos a Rita têm sido minha madrinha, aquela pessoa que me faz melhorar a cada toque seu.

Acho que poucas coisas podem ser mais especiais do que encontrar uma pessoa que desperta o seu melhor sempre. Acho mesmo que isso é tudo que podemos querer, encontrar alguém assim.

E eu posso dizer que tenho duas pessoas que me fazem isso: Sérgio, meu companheiro de trinta e tantos anos, com quem construí uma família e uma história (e sim, essa é uma longa história, daria um outro post); e Rita Paiva, que esteve sempre por perto em minha carreira, desde o tempo em que eu estava apenas começando, ainda sem muito para mostrar ou contar e um montão para aprender (bem, ainda tenho muito que aprender… sempre temos, afinal).

Ela sempre me mostrou um caminho, e hoje, mais uma vez, com essa nova matéria, eu pude rever meu trabalho mais antigo, a pintura decorativa, com uma toque atual e renovado.
Me sinto, uma vez mais, imensamente grata a ela, e por isso não poderia deixar de fazer uma agradecimento aqui.
Obrigada, Rita Paiva, por mais uma vez me mostrar o meu melhor. 😀

A palavra coração tem origem no latim, cor (ou cordis).
Naturalmente seu significado é entendido: o coração, nosso órgão vital, diretamente relacionado à nossa vida concreta, mas também ao afeto e ao amor. Da palavra coração originam-se muitas outras, e uma eu destaco aqui, a palavra concordar, que significa “com o coração“.
A Rita, para mim, é isso.
Com o coração, assim estamos ligadas. Para sempre, Rita.

É do coração...
É do coração…

E, para terminar esse post que fala de coração, gostaria de contar um pouquinho sobre minha nova tatuagem.

Coincidência ou não, minhas tatuagens sempre foram feitas em momentos especiais do meu trabalho. Posso até dizer que elas são símbolos do que o meu trabalho representa para mim, gravados na minha pele.

A primeira que fiz foi com o símbolo do meu logo, o coração/flor que está no alto da página aqui do blog, e que representa meu ateliê, em seu início.
Depois fiz a do meu símbolo do estúdio de serigrafia, quando retomei esse trabalho, outro momento importante. Nessa mesma ocasião eu tatuei o Beeko, meu passarinho feito em serigrafia, e que esteve presente em meus trabalhos de encadernação e colagem, outro momento importante do meu trabalho também.

E agora, marcando mais um novo tempo, em novo espaço, tatuei esse símbolo africano da etnia Adinkra, um coração, de nome Sankofa, que em sua tradução inicial significa “volte e pegue“, ou explicando melhor, quer dizer a importância de aprender com o passado.
Com esse novo trabalho retomei algo do meu passado, e refiz, melhor.
Nada poderia ser mais significativo para mim nesse momento…
É coisa do coração.

E a nova tatuagem...
E a nova tatuagem…

Vou tirar umas pequenas férias e volto em maio. 😀


Enquanto isso, por aqui…

Por aqui no ateliê tenho trabalhado como há tempos não fazia.

mesa 2

Faz seis semanas que estou trabalhando em um projeto bem especial, e agora falta bem pouqinho para vê-lo concluído. Ainda não tenho nada para compartilhar, é um trabalho com um tempo para ser feito, desenvolvido e apresentado, estou apenas no fim da primeira etapa.

O que posso dizer é que fazia tempo que não pintava tanto…
Tô esgotada, mas agora, vendo tudo ficando pronto, estou ficando bem feliz também.

Depois dessa temporada de trabalho intenso vou tirar umas pequenas férias para descansar um pouco, e em maio estarei de volta.
Até já!


Dica do dia: Pinceladas do Bauernmalerei

Para relembrar a técnica, essa peça é bem legal
Dá para ver bem os movimentos das pinceladas.
Eu costumo trabalhar com tintas acrílicas decorativas de acabamento fosco, da marca Corfix.

Uma dica bacana e fazer as “vírgulas”, pinceladas de luzes e sombras típicas dessa técnica com a cor de fundo ainda levemente úmida, e o pincel “carregado” nas duas cores.

Bauer

É assim:

Depois que você aplicar a cor de fundo, e não importa qual seja, retire o excesso de tinta com um pano úmido, mas sem lavar em água. Aí pegue a cor que quer aplicar, no mesmo pincela ainda “sujo” com a cor anterior. Você vai notar que o pincel deslizará muito mais fácil, e a pincelada ficará mais leve, não tão marcada como se tivesse sido feita sobre o fundo completamente seco.

Note na foto abaixo como o branco, sobre o vermelho, é levemente mesclado.
Assim sua pintura fica mais bonita e delicada.
😀

Bauer 2


Caixa livro

Mais uma peça ficando pronta por aqui…
Essa é uma caixinha que imita dois livros juntos.
Resolvi pintar o mesmo tema da capa da minha apostila de Riscos de Bauernmelerei, variando um pouco as cores.
Ainda não terminei tudo, porque pretendo envelhecer a peça. Mas a pintura dos motivos e está ok.

passo 1

Pintei as duas “lombadas dos livros” com arabescos e corações.

passo 2

Uma delas é uma gaveta, e o envelhecimento da peça irá realçar mais os relevos da madeira.

passo 3

Utilizei o mesmo risco que está na capa da minha apostila de riscos, mas mudei as cores e detalhes.

passo 4

Sempre é possível variar a pintura a partir de um mesmo desenho, e em geral, é o que eu faço.
Muito raro pintar duas peças exatamente iguais,

passo 5

Você pode variar um pouco as folhas, as pinceladas das flores, e, sobretudo, os pequenos detalhes que compõe o motivo.

passo 6

Agora com a pintura pronta, o passo seguinte é passar cera e envelhecer com Médium Envelhecedor, o que farei em breve e irei mostrar em um próximo post.

passo 7

E só para registrar, a peça ficou previamente assim:

pronta 1

pronta

Fiquem de olho para ver o trabalho totalmente terminado…